Desde o nascimento de um bebê, os pais começam a ensinar o que ele precisará saber para o resto da vida: comer, falar corretamente, escovar os dentes, ser educado. Mas há uma parte da educação que costuma ser deixada de lado, a cargo apenas da escola ou do tempo. É a educação financeira. Por falta de conhecimento prático sobre o tema ou de como passá-lo para a criança, os pais geralmente não falam do assunto cedo. Isso, porém, pode trazer problemas para o resto da vida. Os especialistas são unânimes em afirmar: quanto antes uma pessoa aprender a lidar com dinheiro, melhor trabalhará com ele no futuro. E o inverso também é verdadeiro. Se não aprender a conviver com o assunto na infância, as chances de trapalhadas financeiras na vida adulta são muito maiores.

 

Quando criança, os indivíduos desenvolvem a estratégia emocional e começam a copiar os adultos em todas as horas, até no caixa eletrônico e nas compras. Por isso, é importante que o dinheiro não seja tratado como um tabu na família. Dinheiro pode sim ser dado na mão das crianças bem pequenas (obviamente com cuidados para que as notas ou moedas não sejam levadas à boca) e isso as ajudará a saber que precisarão ter contato com esse papel pelo resto da vida.

 

PASSO-A-PASSO 

No processo de aprendizagem, primeiro se descobre que é necessário fazer tal coisa para depois saber o motivo disso. Assim como primeiro aprendemos a escovar os dentes para anos mais tarde entender a importância do hábito, temos que começar a ensinar a criança de um ou dois anos a colocar dinheiro em um cofrinho e, quando ela for mais velha, ensinar o porquê do costume”, afirma o especialista em educação financeira, coordenador do site www.edufinanceira.com.br e autor de diversos livros sobre o tema, Álvaro Modernell. Segundo ele, o ato de por moedas em um cofrinho ajuda até no desenvolvimento da motricidade e da audição da pessoa.

 

Com três ou quatro anos, a criança já está preparada para receber moedas em determinada quantidade e constância. Também já é o momento de dar o dinheiro para ela pagar o caixa da padaria por exemplo, mas, claro, com um adulto junto. Aos cinco ou seis anos, ensina Modernell, mesmo que o indivíduo ainda não saiba contar com precisão ou tenha noções de matemática, pode ser ensinada a razão de guardar as tais moedinhas no cofrinho. “Nessa fase, na hora de pagar o cinema, a criança não sabe se tem R$ 3 ou R$ 15, mas o pai deve mostrar que o dinheiro que ela estava guardando ajudou a pagar a conta”, diz o especialista no assunto.

 

Com um pouco mais idade – respeitando a maturidade individual – é hora de mostrar à criança que é preciso guardar um valor um pouco maior se ela quiser adquirir algo mais caro como, por exemplo, a pipoca, além do ingresso para o cinema.

 

A HORA DA MESADA 

A mesada ou semanada é defendida por quase todos os educadores acostumados a lidar com finanças. A questão é quando, como e com quanto começar.  Modernell defende que, com seis ou sete anos, seu filho receba uma semanada para as despesas daquele período. “O valor deve ser a média dos amiguinhos, nem mais nem menos que o resto da turma. Na dúvida sobre o valor adequado, recomendo que os pais dêem menos do que podem”, afirma.

 

Um alerta importante do educador é sobre a constância e o compromisso de fazer esse pagamento. “Se o pai prometeu que vai dar o dinheiro no sábado, tem que dar todo sábado. Não mude, não atrase e não falte.” Dos oito aos dez anos, Modernell defende a quinzenada e, a partir dessa idade, a mesada. “Isso tem a ver com a noção de tempo e responsabilidade”, destaca.

 

A diretora do programa de alfabetização financeira Money Camp no Brasil, Silvia Alambert, também é a favor da mesada. Segundo ela, as crianças que são orientadas a gastar o dinheiro desde pequenas com o que querem e precisam serão adultos mais sofisticados no trato com as finanças. “Tem que mostrar que, para ter algo mais caro, é preciso poupar mais, fazer um pequeno sacrifício ao não comprar chocolate toda semana, mas que isso vai valer a pena”, diz.

 

Já a psicóloga clínica especialista em orientação familiar Maria Luiza Tadula Borges não é fã da idéia de dar mesada, embora admita que não é especialista em finanças para crianças. Com exceção de casos tratados no consultório, ela acredita que, aos dez anos, não se tem maturidade para administrar dinheiro, mesmo que em pouca quantidade.

 

Maria Luiza julga que o ideal seja dar dinheiro apenas aos adolescentes. “Mas se os pais optarem por dar uma mesada, têm que acompanhar para ver se o filho não está deixando de lanchar para comprar um game novo para computador”, alerta. É preciso verificar se as compras e lugares freqüentados pelos pré-adolescentes e adolescentes também são compatíveis com a renda dada por seus pais, afirma a psicóloga.

 

DEVER VERSUS LAZER

De maneira geral, os defensores da mesada afirmam que o valor dado tem que somar obrigações (como transporte e lanche da escola) com desejos das crianças (como compras e passeios). Porém, não se deve ter tanta rigidez com o filho se ele perder o controle do orçamento. “Não vamos esquecer que estamos falando de crianças. Se elas gastaram tudo em um jogo, deve-se explicar que isso está errado, como pode prejudicá-la, mas não dá para deixar de dar o dinheiro do lanche e deixar a criança sem comer o resto do mês”, alerta Modernell.

 

Para os pais que não podem dar mesada, o educador recomenda passar os ensinamentos básicos de economia doméstica, como fechar as torneiras, apagar as luzes etc, e mostrar que, se não estragar, a criança terá cada vez mais brinquedos (noção de soma, de poupança). “Quando possível, se a criança fizer tudo certo, deve-se dar um chocolate ou algum presentinho para ela. Mas só às vezes.”

 

Os educadores e psicólogos recomendam muita cautela na hora de presentear com dinheiro as ações e obrigações dos filhos, como tirar boas notas na escola. “É preciso que a criança tenha noção de comprometimento e obrigação. Isso é parte fundamental da educação, seja ela financeira ou não. Se os pais dão tudo o que os filhos querem, criam apenas tiranos que vão sofrer quando adultos por não terem tudo a seus pés”, explica a psicóloga Maria Luiza.

 

 

ECONOMIA NA PRÁTICA 

Paralelamente ao dinheiro dado em casa, as escolas e os próprios pais podem e devem ensinar princípios de matemática financeira e da economia do País. O professor de matemática do colégio Módulo e da rede pública estadual de São Paulo Antônio Carlos Lessa começou esse trabalho há alguns anos com seus alunos e afirma que a noção de dinheiro e economia deles aumentou com aulas práticas. Atualmente, ele trabalha apenas com o ensino médio, mas já deu essas aulas para o fundamental, levando alunos a supermercados e depois montando tabelas de preços, de cestas básicas por exemplo.

 

“O problema atual é que todos os livros de matemática dão conceitos de finanças e estatística, mas apenas em um ou outro capítulo. Defendo que, desde cedo, da quinta série, por exemplo, as crianças façam atividades práticas de finanças, como analisar os preços do mercado”, diz. Se isso for feito constantemente, afirma o professor, será muito mais fácil aprender, no futuro, sobre inflação, mercado acionário etc. No ensino médio, Lessa é favorável à introdução de temas como debêntures, ações, juros simples e compostos.

 

Por Fernanda Pressinott, repórter do Diário do Comércio, da Associação Comercial de São Paulo, e publicado no caderno de economia, em 30/06/08.

Leave a Reply