Depois de aceitar o limite extra do cheque especial e aliviar a sede de consumo com algum crédito direto ao consumidor, a dúvida: estou devendo demais? Assim como estabelecer quanto dinheiro torna alguém rico, a pergunta simples não tem resposta fácil. Afinal, como determinar quanto é dever demais?
Segundo o consultor financeiro Samuel Marques, especializado em educação na área de finanças pessoais em empresas, está devendo demais quem tem débitos totais maiores que cinco vezes a renda mensal. “O endividamento é suportável se for de até cinco vezes a renda. A partir daí, é preocupante”, afirma. A razão? As taxas de juros “Não enxergo dívida boa no país que tem a taxa de juros mais alta do mundo.”
Para calcular o nível de endividamento pessoal, some o total de dívidas em aberto e divida o valor pelo seu salário. Use o resultado para repensar sua relação com o dinheiro, recomenda Marques. “Temos a tendência de nos acomodar com as dívidas”, diz Confira entrevista do consultor à Agência Estado.
Agência Estado - Afinal, quanto é dever muito?
Samuel Marques - É difícil identificar o que é ser rico. Geralmente a nossa percepção é de que rica é a pessoa que tem mais do que nós. Quem tem uma casa acha que quem tem duas é rico, quem tem dez acha o mesmo de quem tem 12. O mesmo acontece no caso das dívidas. Tem gente que deve R$ 1 mil e não dorme à noite. Outros devem R$ 50 mil e roncam como um bebê. Como esse parâmetro de nível de endividamento é algo que não se encontra na literatura, determinei um índice. Dever muito, na minha concepção, é ter uma dívida superior a cinco vezes o salário. Para fazer esse cálculo, é preciso simplesmente somar todas as dívidas em aberto – do rotativo do cartão de crédito, do cheque especial, do crediário de lojas – e dividir pelo salário. O endividamento é suportável se for de até cinco vezes a renda e a partir daí, é preocupante.
AE - Por que cinco vezes?
Marques - A razão é o juro médio cobrado do consumidor, hoje em cerca de 4% a 5% ao mês. Assumindo a média de 5%, alguém que ganhe R$ 1 mil e tenha R$ 5 mil em dívidas pagaria, só de juros, R$ 250 por mês. Pergunto: alguém que ganhe R$ 1 mil pode se dar a esse luxo? Penso que é muito dinheiro para ser pago só em encargos. Não é só o tamanho da dívida que se leva em consideração, mas também o quanto ela custa.
AE - Há dívidas, como os financiamentos imobiliários, que facilmente ultrapassam a marca de cinco vezes a renda mensal. Mesmo esses casos são enquadrados pelo senhor na categoria “preocupante”?
Marques - Sim, esses casos também são preocupantes. Temos a tendência de nos acomodar com as dívidas. Quando fazem um financiamento imobiliário, as pessoas simplesmente assumem aquela dívida de 15 ou 20 anos para sua vida. Elas não se apercebem nem fazem as contas de quanto isso vai custar em juros Às vezes é o valor de outra casa. O ideal é que a pessoa, a partir do cálculo do nível de endividamento, crie uma preocupação e antecipe o pagamento do débito, para evitar os juros.
AE - Ter dívidas é sempre ruim?
Marques - Há autores que classificam as dívidas em boas e ruins, dizendo que é possível colocar o dinheiro para trabalhar para você. Mas isso é de difícil aplicação no Brasil. Não enxergo dívida boa no país que tem a taxa de juros mais alta do mundo.
AE - Se o aceitável é ter uma dívida igual a, no máximo, cinco vezes o salário, qual é o tamanho de poupança recomendável?
Marques - Um dos princípios da organização financeira é ter dinheiro guardado. Tem uma poupança de até seis vezes a sua renda quem se preocupa em possuir um fundo de reserva para uma situação inesperada ou de emergência. Quem tem um valor guardado entre seis e 12 vezes o que ganha é o que chamo de poupador. É disciplinado e tem planos para o futuro, pretende alguma coisa com esse dinheiro. Pessoas que têm acima de 12 vezes a renda são o que classifico como investidores. São aqueles inclinados a fazer o dinheiro gerar mais dinheiro. Não estão juntando dinheiro para trocar de carro ou viajar, mas para fazê-lo gerar renda. Já quem tem menos de uma vez o que ganha é do perfil “torra-tudo”. Precisamos mudar essa visão e enxergar o investimento como algo que trará renda.
Fonte: Mariana Segala – AE
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E aí? Você tá endividado demais?
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